18 fevereiro 2013

Nesta esplêndida tarde, a inutilidade das palavras


Ó palavras infectadas, para que vos quero?!

Ó discursos ocos enfeitados de nada,

Inércia de estúpidas substâncias

Incolores, insípidas, inodoras...

Por que assombrais a beleza da terra?!


Ó senhores do mundo, onde enterrastes o tempo?!

Ó amantes de Narciso, quebrai o espelho!

E vós, Sátiros incrédulos, ide assustar o medo!

Que eu só quero vociferar sem eco

Contra o verso cerâmico carente de amor.


Mas sei-me inútil, pois

Nada explica os mortos mudos

E nenhum verbo acorda gestos humanos.


Nenhuma palavra honra os rios, oceanos, planícies,

Crateras e elevações que alicerçam a inocência.

A beleza vive longe dos espelhos do mundo,

Escondida entre os cadáveres efémeros

Da eternidade que a ninguém perturba.


Não quero arrufos nem versos,

Morrerei a voar só comigo,

Naturalmente, como um pássaro,

Perdida entre folhas num campo incógnito.


Mas como posso existir absolutamente só?...

_Existo para mim e assim sou tudo:

Aparente e invisível passo enquanto

Me misturo e desfaço na poeira do tempo.


Ainda alimento o destrambelhar das trovoadas:

Lanço raios sobre as casas, maus olhares às famílias...

Insulto as pessoas bem comportadas _e grito

Quando ouço a mudez ressonadora dos surdos!


Podem os imbecis castigar-me por desordem,

Mas, porque sou invisível, nenhum tormento,

Ninguém, me obrigará a seguir cortejos,

Nem mortos nem vivos!


Gosto de me encantar, descobrir nascentes,

Espantar o medo...

Também comunguei na missa de todos,

Mas não quero que me levem

Nem atrás nem adiante.


Não voltarei a fazer convites,

Quem goste de conservação, que fique

Bem guardado até ao dia em que mate

A fome a quem aprecie cadáveres

Crus ou cozidos, pouco importa.


12 Fev. 97

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