Desvairo na noite negra e clara
Aqui e ali surrupio uma gota de vida
Abro todas as minhas portas
Saio e entro em mim e em ti
Discordo de tudo o que existe
Maldigo toda a verdade vestida
Abraço a mentira sincera e sigo
As passadas de um tango em euforia
Anestesiada de absinto
Prossigo mais lúcida
Atacando toda a crueza perdida
3/7/94
03 setembro 2008
Revolucionários?...
_ Bem alto está o pedestal da nossa classe.
_ Pois! E em baixo?
_ «...Fraternidade e Igualdade» lêem-se na base.
_ Pois! E pra descer?!
_ Dizemos que acreditamos na Liberdade.
_ E como nos nivelamos?
_ Com o nosso ego replicado.
Elevaremos a luz que somos, mas cuidado!...
não tropecemos nalgum rei malfadado.
_ E quanto aos remediados da nossa rua?
_ Há que tratá-los consoante
a ufana inspiração da nossa fronte.
_ Pois! E os pobres?...
_ Devemos afagá-los com sorrisos
à distância conveniente, pois é outro
o estado social, estético, odorífico...
_ Pois! E o amor ao próximo?...
_ Antes de tudo, o amor-próprio!
Depois apresentaremos os nossos deuses.
_ Mas como, se somos ateus?...
_ A moderna idade joga a nosso favor
e os homens rudes, rudes, não têm charme
nem sequer classe para entender.
_ E cheiram a suor!... Então,
como poderemos nós dialogar?
_ É possível, com tal gente, criar
uma corrente distante, sem abdicar
da nossa linhagem superior.
_ E o nosso apuradíssimo sentido social?...
_ É prova de inteligência suprema
no pico da classe.
Os outros são os néscios,
os tristes, os simplórios, os conservadores!...
Nós os juízes éticos, estéticos, salomónicos,
socialistas, enfáticos, séxicos, querubínicos,
cépticos, apostólicos, analíticos, sintéticos,
pseudónicos, diuréticos, empíricos, neuróticos,
cirúrgicos, acústicos, ópticos, místicos,
e muito chavótico-eróticos!...
_ Então o nosso ego é inautotocável!?
_ Afavelmente segue a consciência consciente.
Assim perpetuamos a tranquilidade
e a imutabilidade da espécie.
_ E podemos ser revolucionários, mantendo
o nosso ser no centro, acima, abaixo, enquanto
o entretanto dura, antes, durante e depois de nós?!...
_ É preciso alimentar a barriga em cada minuto da vida,
em cada palavra, em cada gesto,
para que permaneça
redonda, aberta e fechada em si mesma.
_ E manter-se-á firme, a bola? Quem acreditará nela?...
_ Todos! Pois lutamos e na luta nos afirmamos.
_ Não por todos, mas por uns contra outros...
A humanidade não somos todos?!...
Como podemos ficar ilesos, ferindo outros?
_ O mundo impõe-nos _ e aceitamos _ que sejamos fortes
e que forjemos deuses e digamos que somos ateus.
_ Mas que diabo somos???...
1994
_ Pois! E em baixo?
_ «...Fraternidade e Igualdade» lêem-se na base.
_ Pois! E pra descer?!
_ Dizemos que acreditamos na Liberdade.
_ E como nos nivelamos?
_ Com o nosso ego replicado.
Elevaremos a luz que somos, mas cuidado!...
não tropecemos nalgum rei malfadado.
_ E quanto aos remediados da nossa rua?
_ Há que tratá-los consoante
a ufana inspiração da nossa fronte.
_ Pois! E os pobres?...
_ Devemos afagá-los com sorrisos
à distância conveniente, pois é outro
o estado social, estético, odorífico...
_ Pois! E o amor ao próximo?...
_ Antes de tudo, o amor-próprio!
Depois apresentaremos os nossos deuses.
_ Mas como, se somos ateus?...
_ A moderna idade joga a nosso favor
e os homens rudes, rudes, não têm charme
nem sequer classe para entender.
_ E cheiram a suor!... Então,
como poderemos nós dialogar?
_ É possível, com tal gente, criar
uma corrente distante, sem abdicar
da nossa linhagem superior.
_ E o nosso apuradíssimo sentido social?...
_ É prova de inteligência suprema
no pico da classe.
Os outros são os néscios,
os tristes, os simplórios, os conservadores!...
Nós os juízes éticos, estéticos, salomónicos,
socialistas, enfáticos, séxicos, querubínicos,
cépticos, apostólicos, analíticos, sintéticos,
pseudónicos, diuréticos, empíricos, neuróticos,
cirúrgicos, acústicos, ópticos, místicos,
e muito chavótico-eróticos!...
_ Então o nosso ego é inautotocável!?
_ Afavelmente segue a consciência consciente.
Assim perpetuamos a tranquilidade
e a imutabilidade da espécie.
_ E podemos ser revolucionários, mantendo
o nosso ser no centro, acima, abaixo, enquanto
o entretanto dura, antes, durante e depois de nós?!...
_ É preciso alimentar a barriga em cada minuto da vida,
em cada palavra, em cada gesto,
para que permaneça
redonda, aberta e fechada em si mesma.
_ E manter-se-á firme, a bola? Quem acreditará nela?...
_ Todos! Pois lutamos e na luta nos afirmamos.
_ Não por todos, mas por uns contra outros...
A humanidade não somos todos?!...
Como podemos ficar ilesos, ferindo outros?
_ O mundo impõe-nos _ e aceitamos _ que sejamos fortes
e que forjemos deuses e digamos que somos ateus.
_ Mas que diabo somos???...
1994
Desejo absurdo
Só queria que fôssemos humanos,
que a vida fosse mais que a morte,
que o absurdo não dominasse o mundo,
obrigando os homens a esconder o medo
debaixo duma crueza aparente e forte;
ou a enlouquecer, de tanto querer viver
em paz e seguir adiante realmente.
Mas quem inventou o absurdo?...
Quem enlouqueceu e nos chama loucos?
1994
que a vida fosse mais que a morte,
que o absurdo não dominasse o mundo,
obrigando os homens a esconder o medo
debaixo duma crueza aparente e forte;
ou a enlouquecer, de tanto querer viver
em paz e seguir adiante realmente.
Mas quem inventou o absurdo?...
Quem enlouqueceu e nos chama loucos?
1994
02 setembro 2008
[Um rio brotou das entranhas do céu]
Um rio brotou das entranhas do céu
e por vales correu,
desbravando a terra virgem
da mais terrível região do deserto.
Caminhou...
derrubando dunas,
desfazendo rochedos,
até desaguar num mar em chamas
e arrefecer as águas em volta
da ilha vulcânica de Marabi.
Nas areias plantou flores vermelhas:
e de cada flor nasceu um fruto
e de cada fruto um Deus.
Assim começou a história do povo marabino
que, não tendo pernas,
por sobre as ondas
voava e sorria.
1994
e por vales correu,
desbravando a terra virgem
da mais terrível região do deserto.
Caminhou...
derrubando dunas,
desfazendo rochedos,
até desaguar num mar em chamas
e arrefecer as águas em volta
da ilha vulcânica de Marabi.
Nas areias plantou flores vermelhas:
e de cada flor nasceu um fruto
e de cada fruto um Deus.
Assim começou a história do povo marabino
que, não tendo pernas,
por sobre as ondas
voava e sorria.
1994
A Dionysos e Eros
Rubro escorre pelas gargantas,
invade e embriaga os corpos
que no delírio se confundem
e enlouquecem...
Os dedos brincam na pele nua,
aqui e ali afligem
ou roçam de leve...
ateando insuperáveis suplícios.
Um odor animal mergulha-nos
num jogo lúbrico...
Inquietas bocas, secretas línguas,
irrompem e gritam
...Anima descontrolata...
1993
invade e embriaga os corpos
que no delírio se confundem
e enlouquecem...
Os dedos brincam na pele nua,
aqui e ali afligem
ou roçam de leve...
ateando insuperáveis suplícios.
Um odor animal mergulha-nos
num jogo lúbrico...
Inquietas bocas, secretas línguas,
irrompem e gritam
...Anima descontrolata...
1993
01 setembro 2008
É fácil
É fácil viver
seguindo a corrente
soprada pela força divina.
É fácil falar
sem dizer nada
repetindo palavras rebuscadas.
É fácil vestir
o hábito monacal
que amarra o corpo
e agrada aos outros.
É fácil ser fácil,
ter a ilusão da força
(quando a vontade de ser
é constituída pelo ter)
de quem nada tem...
1993
Lamento por Rabequel
Rabequel sabe defender-se
....E argumenta em seu favor
Admira o que desconhece
....E afável se mantém serena
Vê muitos efeitos sem causas
....E na obediência se perde
Rabequel não entende
A sobrevivência além dos céus
Mas gostaria de rutilar
Sem os infernos de ser
Uma outra mulher
1992
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