Bebedeira
Um dia entrei numa taberna:
Provei um copo de bebedeira
Acompanhada por sardinhas fritas,
Toucinho, linguiça e pernas.
Comecei a frequentar a missa,
Sempre à espera de vê-la jorrar
Rubra no maravilhoso cálice,
Penetrante na boca do padre.
Agora trago-a da mercearia
E continua a deleitar-me,
Fogosas e de gritantes cores,
No interior da garrafa verde.
14-01-97
Memórias
Sonho que estou sentada
No balcão da minha rua,
A tomar o fresco da tarde
Trazido pla gente que volta da lida.
Mas nos campos agora desertos
Nesta terra de novo virgem
Já só crescem mato e estevas
De perfume sem dono.
Fecho os olhos e vejo o passado,
Relembrando tempos confusos,
Vejo cheio o chão das aldeias
Abertas na comunidade da terra.
13-01-97
Quisera adorar o Sol,
Mas o dia cobre-me a essência,
Tornando artificial toda a lucidez.
Assim escolho a clareza da noite
E o devaneio inimaginável
Por companhia.
12-01-97
Quero ser um pássaro vermelho,
Voar até à Lua
E enchê-la de coragem
Para que nunca esconda
A sua luz inquietante e apaixonada,
Para que o seu brilho
Seja guia do amor
E na sua imensa esfera
Rodopie, interminável, o desejo.
12-01-97
Pra onde foi o vinho mágico?:
_voltou-me a frieza ao espírito
e agora: _que digo?!...
Queria vazar da caneta o tinto
e dormir em paz no esgoto,
mas onde está o vinho?!
Plos dedos desliza-me azul,
o papel empalideceu
e na minha cabeça nada crepita.
Homessa!: _então a fábrica fecha assim?!
_inda não desliguei a corrente de nervos.
Continuo à espera da faísca,
mas nenhum raio m’atordoa!
Caramba, que seca!!
Viro o traseiro prò lume:
aquecida apenas por detrás
não posso mirar a Lua.
8
Jan. 97
Teresa cria estar presa
no século passado,
enredada num libidinoso fado
de penas e suores vertidos
contra o corpo do amante
onde louca se escondia
com inexplicáveis sorrisos.
Noite e dia voando
ansiosa por um deleite,
viu no estrondo percorrido
o sono em que se perdia
quando, cansada e atrevida,
acordava a preguiça sentimental
de um corpo sem enredo.
Restou apenas um relâmpago:
_sem trovão, pois então!
8
Jan. 97
Naquela triste sala penetraram trinta
pontos
à procura dos limites de um pobre diedro,
porém
escorregaram na geratriz oblíqua de um cone
recto,
perdendo o eixo no labirinto infinito da
esfera
para revoltos caírem no centro da linha de
terra.
8
Jan. 97