14 agosto 2008

Defronte do espelho

Defronte do espelho um homem

Imagem real e imagem virtual

Dentro do espelho a figura nua

Vestida do lado de fora

 

Sobre degraus o homem sobe

O corpo coberto por uma capa

Ao cimo da escada uma porta

Do lado de lá outro espelho

Com a imagem nua do homem defronte

Subindo a escada à procura da sua figura

 

Salas vazias e portas abertas

Numa sucessão infinita de rectas

O homem percorre o espaço

No fundo interminável um espelho

Reflecte a imagem da loucura

 

 

1987


13 agosto 2008

Libido nocturnal

Abre-te, noite!

abre-te ao néctar do amor.

Deixa a imaginação fluir

pelo rio dos corpos afogados

na alegria deliciosa do prazer.

 

Enquanto o dia dorme

a embriaguez é infinita;

a natureza brota,

cai o véu da culpa,

a verdade grita!!...

e expande-se em luzes mil.

 

Os lábios procuram a alma da terra

e sorvem o céu

na água caída da tua boca.

O sonho invade e derruba

o soberano abismo do castelo da razão.

 

A música emerge das carícias,

penetra no ventre da terra,

atrai o fogo à pele da vida

que se desmancha e dança

na loucura do prazer etéreo...

 

A inteligência erótica

saboreia o espírito da noite

no vinho da sabedoria

do feiticeiro da libido.

 

O medo é açoitado

pelas mãos da coragem,

enquanto a ousadia abraça

o infinito imprevisto.

 

E quando a Lua se mostra...

os fios da noite entrelaçam-se

no ritual do delírio:

_ ondulam em torno da Terra

e assistem ao parto da magia.

 

 

1987

12 agosto 2008

Mão-árvore

 Mão-árvore,

agitas-te quanto podes:

revolves... revolves... revolves...

a terra em volta das raízes.

Mão aberta,

tronco vermelho de desejo,

dedos longos... longos... longos...

ramos espreguiçados mais... e mais...

aspirando o além-espaço.

Mas mão-árvore!...

Raízes-cérebro!!

A árvore seca se as raízes cortarem,

a mão murcha se o cérebro morrer,

mas mão-árvore não quer ficar presa.

Mão-árvore

hoje olhou para baixo

e viu-se presa à terra

_ amarrada até pelo ar _

e a amargura secou os seus lábios,

os seus olhos entristeceram,

o corpo inteiro chorou.

Isto passou-se num dia de trovoada

e só a sua alma sentiu a condenação

a prisão perpétua.

Mas não se afogou a mão-árvore,

continua procurando... procurando...

procurando... talvez destruir-se,

pois o seu maior desejo é voar

sem algemas nas raízes.

 

Explicação da mão-árvore

Nascem em terra vermelha e de nove em nove anos choram debaixo do Sol abrasador de Agosto. Porque os homens, sem dó nem piedade, arrancam-lhes a pele com um machado. Árvores que são corpos em carne viva e ao mesmo tempo mãos presas à terra (cinco ramos como cinco dedos). É impossível um alentejano não as adorar.

E eu sou um sobreiro preso à terra que procura libertar-se das algemas raízes, que quer talvez destruir-se, pois o seu maior desejo é voar, conhecer e amar tudo.

Presa à terra, e também com claustrofobia da atmosfera, nem o desejo que retorce os ramos e os troncos vermelhos impõe limites à conveniência da razão. A mão-árvore não se afoga em lágrimas, apesar da amargura visível nos lábios, da infinita tristeza nos olhos, de toda a agitação e procura do êxtase no além-espaço. A terra impõe-me o florescimento da rude inteligência. Por isso continuo a equilibrar-me, qual funâmbulo, num arame incerto. Protegida, contudo, pelas tais raízes que me limitam os voos (mas não os sonhos). Com os ramos espreguiçando-se, sempre mais e mais, a consciência e a vontade de chegar aonde nada seja apenas nada e tudo exista como realidade, sem os abismos desta vida que nos nossos dias replica o prolongamento das regras convenientes, será que um dia acharei o meu lugar mágico?

 

Maio de 1981

[Arabescos, manchas]


Arabescos, manchas,

desencanto, esperança...

todos se confundem

e me confundem. Mas

num deslize de olhos

pelas formas revoltas,

vejo

em cada uma o corpo

amalgamado do tempo.

E transfiguro-me,

e enlouqueço,

e perdida fico

nesta confusão que desnorteia

_preciso sair daqui!,

mas lá fora nada encontro.

 

 

Fev. 80 / Fev. 81

(pintura a verde-80; repintada a negro-81)

11 agosto 2008

Ilha

Atmosfera de silêncio e música,

ilha negra e clara, perfumada

de sorrisos, líquenes e bichos

felizes de árvore em árvore.

E as raparigas, belas como as flores,

entoam cânticos lunares:

divinas vozes que plos ares voam,

pulverizando a ilha

de pétalas musicais.

 

 

Janeiro de 1981

(pintura azul, verde, dourado, branco e preto)


Sonho

Numa clareira da noite

um demónio se agita,

expulsando a peste negra

e a razão maldita.

 

O seu rosto apaga-se

e desce para o nada,

arrastando a máscara

pela madrugada.

 

Nos ares ecoam aplausos

de semideuses ateus,

que os demónios transformam

num imenso deus.

 

 

Jan. 81

(pintura a branco, vermelho, azul e preto)

[No fundo do mar, as borboletas]

No fundo do mar, as borboletas

bailam, nas asas enlaçando estrelas.

No fogo da terra, as algas

atraem toupeiras e os homens

seduzem sereias _ para prendê-las

em conchas de ostra,

corais e pérolas _,

enquanto um pássaro negro

de vigia à gruta da noite,

por detrás do Sol ilumina

a terra e o mar

dos poetas.

 

 

Agosto de 1980

(pintura)


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