01 setembro 2008
É fácil
É fácil viver
seguindo a corrente
soprada pela força divina.
É fácil falar
sem dizer nada
repetindo palavras rebuscadas.
É fácil vestir
o hábito monacal
que amarra o corpo
e agrada aos outros.
É fácil ser fácil,
ter a ilusão da força
(quando a vontade de ser
é constituída pelo ter)
de quem nada tem...
1993
Lamento por Rabequel
Rabequel sabe defender-se
....E argumenta em seu favor
Admira o que desconhece
....E afável se mantém serena
Vê muitos efeitos sem causas
....E na obediência se perde
Rabequel não entende
A sobrevivência além dos céus
Mas gostaria de rutilar
Sem os infernos de ser
Uma outra mulher
1992
30 agosto 2008
Quanto vale um gesto?
A que espécie pertence o movimento
de um corpo? Quem dirige os passos
da caminhada com relógio no pulso?
Que voz pronuncia as palavras iguais
saídas das bocas em uníssono abertas?
Que doçura estrangula as vidas
que cumprem a ordem oculta
nas coisas tidas por vividas?
Que me importa a mim
que os outros não vivam,
se eu próprio morri!?
Que me importa a luta despida,
se me oferecem a ilusão da vida!?
Não! nada importa
e a consciência é pedra que quebra.
Basta-me a certeza de ser
_uníssono! _ como um
túmulo.
Para quê pensar,
se o pensamento contradiz o consenso?
Para quê reagir,
se o mais inane movimento
poderia arruinar o mundo?
Para quê interrogar,
se as respostas sempre seriam incómodas?
Eu estou sempre de acordo
_ ordenai, que executo!
A consciência foi ultrapassada pela fusão
_ está dito, repitam-no todos!!
Posso inventar tudo para explicar isto,
mas eu sou o vosso anátema,
não a escolha máxima.
Por vezes chamam-me democrata
_ mas sê-lo-ei?
Sooouu!!!
Grito! e, se preciso for, mato
o meu próprio filho louco,
corto a minha mão que peca!
entupo os canais subversivos
da verdade pura e universal!
Eu sou um arquétipo
_imponho-me o dever de sê-lo.
Não me envenenem com falsidades,
os meus anti-corpos são óptimos
_para o diabo a vossa sanidade!
Não adianta interrogarem-me
sequer quanto à origem dos meus actos:
_ ofusca, descaradamente,
o meu carácter inatacável.
Eu sou um justo!
Nunca ajo sem sopesar os outros
e a harmonia dos mundos. É ridículo
perguntarem-me o que é amar, pois
agindo naturalmente eu amo.
Que ninguém me peça provas:
_não, não me interessam!
E não quero sentir
nem pensar! ¾ magoam
e eu sou uma criatura humana.
_ Eu não sou marginal!
Não vedes que estou com todos?...
Simplesmente obedeço
e, sem dúvidas, entre os homens
estou acima de todas as bestas.
Eu sou ra-ci-o-nal
_ os animais são animais.
Eu não sou animal!
_ Então eu não sou homem!?...
Só a razão me governa a vontade
e as razões de fundo são os lemes da minha vida.
Vida?!... _Claro, vida!
Que bom estar vivo!... só por isso eu sou feliz.
Infelizes são os mortos!
Os mortos são infelizes?!...
_obviamente.
Eu não sou propriamente um rei, mas
por aí rasteja muita minhoca.
Quando me constipo fico radiante
_outros sofrem até morrer _que espectáculo!
Não... Não me confundais, eu sei tudo.
Que ninguém me desminta,
não quero ouvir, calai-vos!!
Ou então falai!... falai!...
eu só ouço o que já sei
_já nasci com tudo.
Fui criança...
e desenvolvi-me tão bem, tão bem!...
que me tornei o ser mais esplêndido.
Hoje sou um velho sábio,
já vivi muito, mas
quanto a saber, já nasci com tudo!
_E quanto à morte?
Perguntais se me assusta?!...
Claro que
não!
naturalmente serei trasladado.
Sei que não passo duma insignificante peça
no maquinismo da vida
_mas que ninguém me chame máquina!
Não imagineis que sigo o rasto de outros
só por medo de arriscar caminho incerto:
sei que a verdade está nas evidências,
arriscado é seguir o rasto de outrem.
Ainda assim, arrisco tudo
porque sou o melhor do mundo
_ o mais esperto, o mais afoito!
Quem se atreve a desafiar-me
para uma guerra corpo a corpo?!
_ Quanto
valerá este gesto?...
só com sentidos autorizados?
Janeiro de 92
22 agosto 2008
Descrição de um prazer
Acabei de saborear um trago de água tónica.
Apercebi-me
de que era líquida, espumante, borbulhante, ácida, amarga, não como um limão
porque não é leitosa, mas mais transparente, mais azeda e mais doce, muito expansiva, enquanto se mistura com a saliva e dança entre o palato e a
língua.
Ao
dividir-se em infinitas partículas dentro da minha boca, deixa de ser líquida.
Por
fora, também é um pouco assim: se a despejo num copo, inicia um marulhar veloz
e lento: nem uma gota de água cai no copo, é apenas espuma que se alastra e transborda.
A sua
forma é como a daqueles líquenes que se propagam em sopros pelos corpos impolutos.
A cor
é amarela, verde e castanha, com uma ponta de negro.
O seu
grau de transparência sofre várias metamorfoses: começando por ser total dentro
da garrafa fechada, torna-se opaca ao cair no copo, depois translúcida, e
novamente transparente quando se acalma.
Se
entra na minha boca, fica granulosa e dispersa, flutua e penetra em todos os
vasos e mucosas, infiltra-se no istmo da garganta e daí escorrega até ao
estômago, mas, nesse momento, já é um gás leve e espesso.
A
água tónica é um bálsamo para a minha boca.
Quando
penso nela, desejo-a... quero bebê-la! e sentir o Prazer Supremo ¾ entre o momento em que se expande e aquele em que cai, deixando o
seu sabor indescritível incrustado no
meu espírito.
1991
21 agosto 2008
A vitória das virtudes
É preciso rasgar o corpo,
redescobrir as entranhas,
revirar o sentimento,
para não ser hipnotizado
pelos deuses deste mundo!
Atraem-nos, acreditando
possuir-nos alma e corpo
e se deles nós fugirmos,
vem o exército de rendidos
e a derradeira sentença.
Depois, trocarão o nosso cérebro
por mioleira de asno morto.
Então, serenamente, celebraremos
a vitória das virtudes.
Ai Gertrudes, Gertrudes!
18/03/91
15 agosto 2008
Obsessão
Interminavelmente, desejo
o que não quero!
o furacão da lástima
que na escuridão procuro.
Ah, se ao menos nisto houvesse
um único fio de felicidade!...
E vai correndo a minha vida
anormal, pesada
na miséria da dúvida
que alimenta o medo:
penetrar o objecto,
apagar o corrupio,
viver como gente...
ou destruí-lo,
enfim abrindo
a irracionalidade
que sou eu?...
14 agosto 2008
[Nada, nada...]
Nada, nada...
_ que quereis que vos diga?!
Ficai aí, reluzentes e estúpidos,
olhando pra mim.
Mas não vos fixeis por demais!:
pode ser que eu decida
lançar-vos fogo, vendavais,
comida, bolor, sangue de rapariga...
Ficai aí onde estais!
Porque, se vos aproximais
sulco -vos com o meu amor:
e ficais perdidos, pobres, tristes...
Pois descobrireis
que não vale a pena viver entre cordéis
à espera da mão divina
que vos abra o coração
e exponha o ventrículo da coragem
de ser pequenino.
1 Abril 87