27 dezembro 2012

Um lençol quadriculado



Vejo um lençol quadriculado

Uma rede que se prende à gravidade

A tela que se enrola às grades da cama

A prisão que suspende a minha alma

 

Ao lado jazem umas botas de macho

Um par de couro em forma de pernas

Vazias do áspero corpo hirto

Obscenas de tanto magoar as pedras

 

Sobre mim pesa um inverno espesso

Incómoda atrofia de músculos e nervos

Horrenda represa do rio estagnado

Que se aquece na esperança que descansa

 

 

9 Fev. 97

Penas sob estrelas



A minha condenação está nos limites que não admito

¾ Uma pena tomba sobre cada palavra, cada grito!

Sentenças amesquinham-me a alma e a voz.

 

Sobre a minha cabeça tombam milhões de penas,

Mas acima delas brilham infinitas estrelas!...

¾ Jamais o Universo caberá numa balança.

 

 

9 Fev. 97

Desencornadura



Agarra bicho, macho,

as bandarilhas da valentia!

Espeta-as no ferro da tua dureza,

enterra-as bem no fundo

dessa cabeça tenebrosa!

 

Procura a alma do animal oculta,

arranca a besta! e devolve a criança

à arena do sentimento.

 

Arreda os ecos do pesadelo,

arma-te de coragem e perde

essa armadura _mais falsa

que a tua inocência enredada

nas raízes da cumplicidade!

 

Aventa a espada e chora!...

Amanhã renascerás

igual a todas as criaturas.

 

 

2 Fev. 97

Ala comum



Heróis, bravos bonecos de cordel
 
Movidos em prol da estupidez
 
Nos caminhos da ida em marcha atrás
 
Seguis cantando alegres tristezas
 
Entre honrarias de sebo articulados
 
Pelo espelho espantado da justiça

 

1 Fev. 97

Na eterna procura



Voltarei ao primeiro ímpeto de amor

Voltarei à palanca da primeira entrega

Voltarei à ilusão da ditosa infelicidade

Na vida sentindo as únicas entranhas

Que sem sonhos em mim se movem

 

Na eterna procura

 

Abrigo na alma a explosão de lava

Da primeira febre comungada na terra

Enquanto o fogo revolvia os rios

E o gelo queimava os ciprestes

 

Na eterna procura

 

Em cada chama sentirei as mentiras da lei

Para sempre aspirarei o teu perfume e calor

Morta serei quando me fugires, amor

 

 

1 Fev. 97

08 agosto 2012

[Já que não tenho perfume, amor...]



Já que não tenho perfume, amor...
 
Quero ir por aí!
 
Abraçar os mal-amados frutos
 
Sobreviventes das rendições:
 
Quero infectar-me nas despretensões miseráveis!
 
Amanhã quero estar na lâmina dos golpes mafiosos,
 
Naquele mesmo templo onde hoje bebi o engano
 
Amanhã devorarei a essência da violência
 
_Exterminá-la-ei!
 
Porque não fujo daqui onde o medo acalanta o ódio,
 
Porque sei que aqui todos serão desmascarados,
 
Porque em todos os lugares a vida se disfarça,
 
Aqui quero sepultar a palidez dos hábitos
 
Que contaminam as cores da Terra
 
_Embora mais me apeteça recolher-me
 
Numa casa de bichos
 
Na terra das flores.


1 Fev. 97

07 agosto 2012

Colagem sobre a morte



O cão ladra na esquadra,
O polícia no canil,
O pobre diabo no desgosto
Finge ser rico num pau de sebo.

Se enganos não fossem tristezas,
Eu até acreditaria,
Mas quanta pobreza deu Deus
Ao reino da vã alegria!

Ó filhos da morte,
Merdosos de tudo,
Aonde vos leva essa estrada?
Se um dia sereis da terra unguento,
Que fel vos alimenta o medo?

As glórias que esperais colher
Só florescem em campos de enganos:
Onde as remissões benditas
Derrubam a vil caminhada
Ninguém virá admirar acrobatas.

Apenas somos grãos de poeira
No tempo que nos esquecerá,
Tudo o que comermos nesta terra
Será merda no dia de amanhã!

Quereis vencê-la, porém
Nenhum ludíbrio vereis perdoado:
Sereis cagados e esquecidos
_Embora o esforço da digestão
E de mil desculpas sem sentido.

«Eu devo o meu corpo à terra,
A terra mo está devendo:
A terra paga-me em vida,
Eu pago à terra em morrendo.»

Dois milénios decorridos,
Quantos crucificados e endeusados
Abriram caminhos de árduos trilhos?
Mas quem quer ver nos seus olhos?!...

Se a vossa vida é vazia
E o medo vos despedaça,
Sementes redentoras achareis
No interior da esfera esburacada,
Perdidas na dormência da alma.


31 Jan. 97

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