27 dezembro 2008

[Neste rio corro pelo Mundo]

Neste rio corro pelo Mundo
à procura de segredos afogados
nos caminhos d’água dos olhos,
pouco alargando o entendimento.

Mas quero chegar ao fundo!...
descobrir entranhas atrofiadas
e nas profundezas do infinito
saciar a última célula infecta.

Neste rio sem fim prossigo,
violentando o átomo virulento
até rasgar a triste partícula
que ainda ilude a minha alma.

Dez. 96

04 outubro 2008

[Adoro e abomino este livro escuro]

Adoro e abomino este livro escuro
onde o bem e o mal arrogam a verdade,
misturados amiúde sem sentido:
ao mal atribuindo boas qualidades
e no bem ignorando as purezas do mal.

Sempre másculo e em nome de Deus
intolerante para com os pecadores,
horrendo castrador das mulheres,
opróbrio dos artistas,
bajulador dos passivos,
conservador e revolucionário
na firmeza dos preceitos.

Não houvera quem nele lera outros nexos
não escondidos, venceria o dogma terrífico
contra os filhos do Deus que nada escreveu,
apesar da insistência, dita humana, no sacrifício
de tantos dons divinamente recebidos.

De milénio em milénio, pouco mudou
na natureza humana. Sentimentos
dissimulados, grandes delírios no verbo
e no modo, ocultaram da vida a forma
manifesta no intervalo das estrelas.

Mas tudo persiste, imutável
desde o domínio das vozes divinas
engendradas para calar o Homem.

Livro bem intencionado, sagrado
de vias infernais na vida e na morte,
Bíblia bebida como escárnio da Humanidade,
devolve e espalha essas folhas!
à dor dos sábios arrancadas.


23 Dez. 96

02 outubro 2008

[Amigo]

Amigo,
pra quê um armário tão grande, se ninguém te come?
Onde escondeste o amor, o mel, a verdura dos olhos?
Pra quê tanta mentira? se, desalentado, não dormes
e fechas o poeta no armário que te protege a ilusão.
Neste mundo de seres obedientes,
almejaste subir ao inferno:
_ o que por lá viste?...
Por detrás desses olhos queimados,
com a alma fora do mundo
entraste no tédio,
armando a coragem cobarde
nesse imenso armário que te defende,
para exibires a verdade...
Amigo,
não fujas de mim, que não minto!...


16 Dez. 96

Esperança no Ar

Vem... Ar!...
congela-me o frio calor,
desembrulha o inverno,
torce as pernas mornas
deste bailado diabólico!...

Vem... Ar.... Vem!...
arrefece-me a morte,
rouba-me o vinho e a sede,
arranca os gumes tenebrosos
deste inferno surdo!...

Vem... Ar.... Vem!...
acorda os lírios e as cobras,
enche-me a cama de folhas,
traz a mortalha e as chamas
da tua cabeça alucinada!...

Vem... Ar... Vem!...
sobe à Terra, sente o vento,
espero a tua alma fria,
traz o veneno da Lua
e acalma esta agonia!...

Vem cá, Ar maldito!
não vês o Sol a brilhar
além nos montes distantes,
a derribar sobre as nuvens?!

Vem... meu Amor!...
cá estarei ao entardecer,
álgida e nua, irrompendo
da ternura dos ódios.

Vem, deus dos desertos!
corrói-me o corpo vicioso,
dulcifica a tortura tépida
das minhas impetuosas tremuras!...

Vem... Ar... Odeia-me!
que não quero amor roubado
aos diamantes rudes e puros.

Odeio-te, Ar... Vem!...
hei-de amar-te até me enterrar
no esterco desta terra luminosa.

Amar-te-ei por detrás da luz,
amar-te-ei além do amanhecer,
no ovo podre, no desgosto,
na fetidez que por ti respiro!

Amo-te, Ar... Vem!...
aqui renasce,
em mim
injuria todos os asseados
que plas ruas afiam gládios!

Ergue-te e resplandece, Ar!...
irmão eterno dos simples,
que a vida borbota
em cada fruto suspenso
nesta esperança
até ser Homem.


14 Dez. 96

11 setembro 2008

Pescaria

Costuma sentar-se no topo do monte
com uma cana de pesca, sorridente,
atirando a linha ao mar de peixes
embevecidos na isca do anzol suspensa.

Um semi-ingénuo abre a bocarra
pronto a rasgar os beijos na troca
do seu corpo esfarrapado por uma bela
mercadoria de engodo exposta na barraca.

Naquele mar os peixes apodrecem,
saltitando entre estilhaços e garrafas,
à espera do álcool que apague os reflexos
de jovens ansiosos e ricos desfigurados.

Hilariados os rostos emergem do lixo
sem ver o esqueleto que ficou no fundo;
e os mergulhadores enfatuados aplaudem
o banquete imundo de fétidos petiscos.

Lá bem no alto, o astro-rei festeja
a rica sucata que a multidão lhe trouxe
e anima as raparigas que se contorcem
no interior gelado duma lata ferrugenta.

Por fim o criado recolhe os pescados,
os ventres esfaqueando vigorosamente,
e de cada escama arranca um príncipe
que a áspera faca em sapo transforma.


Dez. 96

07 setembro 2008

«Que nem um cão»

Sobre si mesmo
dizia ser «que nem um cão».

Todos os dias fiel
cumpridor dos deveres,
abnegado animal doméstico,
minucioso inspector da limpeza,
investigador das partículas de pó
desde o tecto ao tapete da toca.

Dedos de fada carnívora
na aspiração da desordem:

Tocava e limpava
_ Inspeccionava!...
Lavava e limpava
_ Inspeccionava!...
Lambia e limpava
_ Inspeccionava!...
Arrumava e limpava
_ Inspeccionava!...
Descansava
_ Inspeccionava!...
Limpava...

_ Antes fora vassoura! _ Mas,
espectacularmente, não limpava
nos dias em que vomitava,
«quem nem um cão»,
sobre si mesmo.


4 de Dez. 96

Às meninas bonitas

Oh!... Me-ni-na!
O brilho da sua saia ofusca
os olhos de qualquer idiota.
Mas não se iluda!...
pois nesse brilho
ele só vê
a sua própria imagem
adornada por você.

23 Nov. 96

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